Arquivos mensais: Fevereiro 2012

Gato Maltês

Gato Maltês

Sara,
Antes de ir dormir, costumo contar-te histórias. Uma de que gosto muito é:

Era uma vez, um gato maltês
Que tocava piano e falava francês
Queres que te conte outra vez?

Mas como desde pequena que fui habituada a brincar com as palavras e a alterar as histórias, depois fazemos outras versões da mesma:

Era uma vez, um panda chinês
Que tocava flauta e falava português
Queres que te conte outra vez?

Era uma vez, um leão finlandês
Que tocava tambor e falava tailandês
Queres que te conte outra vez?

Cada noite inventamos uma nova! E tu, já entras no jogo tão bem!

O teu avô materno sempre jogou com as palavras e tem expressões hilariantes como: estar com uma perna no ar e a lamber a outra, um guarda-fiscal às colheres e a primeira vez que disse que me dava uma bolachada, comecei a rir porque pensei que me ia dar uma bolacha grande! Ficou desarmado com o riso e esqueceu-se porque me estava a ralhar.
Filha, espero que nunca leves as palavras demasiado a sério, são o que são. Importante não é a palavra que se diz mas o uso que fazemos dela. No Porto, os palavrões não querem dizer o que são porque são usados para reforçar o discurso, como pontos de exclamação! E há palavras meigas que usadas com ironia ou sarcasmo magoam muito mais!
Utiliza sempre as palavras com amorizade.
Adoro-te!
28.02.2012

Bela Adormecida

Bela Adormecida

Sara,
Continuando a nossa última carta, vou falar-te sobre a Bela Adormecida que ainda não viste. É acerca de uma menina que é amaldiçoada logo em bebé porque uma pessoa poderosa foi ignorada. Então, todo o mundo principalmente os pais decide protegê-la, colocando-a numa redoma, abstraindo-a de tudo o que lhe possa fazer mal. Cresce ignorante acerca do mundo que a rodeia e por isso, logo que surge o mal não é capaz de o identificar e magoa-se. Ironicamente fica protegida durante anos e anos, num estado de inconsciência total, até que alguém a salve.
Esta história serve-me de aviso como a educadora que não devo ser. Porque sim, como qualquer mãe que se preze, gostava de te proteger de todo o mal, de todas as pessoas venenosas e de todos os perigos, mas sei que não devo.
É importante que enfrentes o mal, as pessoas que te vão querer magoar para que cries mecanismos de defesa e devo apresentar-te aos perigos do mundo para que tenhas consciência dele e assim evitá-los no futuro.
Filha, não te quero adormecida, quero-te bem acordada para o mundo pois é nele que vais viver e hei-de estar sempre ao teu lado para conversarmos e encontrarmos soluções aos teus problemas.
Adoro-te!
24.02.2012

Cinderela

Cinderela

Sara,
Viste ontem pela primeira vez a Cinderela. A Cinderela é um conto infantil com imensas variações conforme o país onde é contado, mas no fim, a moral é sempre a mesma. As meninas que suportam a adversidade e as pessoas maldosas da sua vida com bom coração, serão premiadas com o reconhecimento da sua bondade e também verão os seus sonhos realizados, entre outros casar com um belo príncipe.
Penso que esta história lindíssima mas descontextualizada do nosso mundo faça com que muitas meninas, adolescentes e depois mulheres sonhadoras acreditem que os príncipes encantados existem e que serão sempre recompensadas pelos seus esforços. Faz crer que os homens perfeitos existem e que vão aparecer um dia para as salvar de si mesmas e do mundo mau que as rodeia.
Filha, não quero que este seja o teu sonho prioritário de menina porque senão vais ser muito infeliz quando cresceres e compreenderes que não há príncipes encantados. Há cada vez menos casamentos, cada vez menos relações estáveis e pior, há mulheres que vivem com homens que as maltratam porque acham que eles vão mudar se elas suportarem a adversidade. Infelizmente, não vão!
Por isso, Sara, vou continuar a contar-te muitas histórias e até inventar algumas mais modernas para que não te prendas a este padrão e para que cresças uma menina equilibrada com muitos muitos sonhos variados de futuro.
Adoro-te!
22.02.2012

Insatisfação

Insatisfação

Sara,
Há pessoas que estão sempre insatisfeitas. Espero que nunca venhas a ser assim! Achamque estão sempre em busca de alguma coisa e que para serem felizes precisam desesperadamente desse algo que falta. Nunca conseguem relaxar nem apreciarem as pequenas conquistas de cada dia, nem a simplicidade de cada momento: um raio de sol num dia gelado de inverno, a melodia encantatória do mar, o sorriso de um desconhecido na rua… Depois, nessa corrida incessante à procura do que falta, estão sempre a exigir mais dos outros e nunca estão contentes com qualquer esforço que façam,nem qualquer acto,nem qualquer demonstração de afecto.
Dentro das insatisfeitas há ainda um subgrupo de pessoas que não conseguem gozar o momento porque estão sempre à espera do acontecimento ruim que há de estragar o dia. É como se a sua vida fosse uma eterna escalada a uma montanha escarpada, destinados a cairem a qualquer momento. Dizem-se pessimistas mas na verdade são neuróticos e sofrendo de uma perturbação qualquer ansiosa. Precisam de meditar, de reformular pensamentos negativos em positivos.
Como podes ajudar pessoas assim? Ensinando-as a soltarem a criatividade que está guardada numa caixa. Qualquer actividade serve:bricolage, artesanato, origmis, pintura, desde que consigam apaixonarem-se pelo que fazem e deixarem a energia apoderar-se da sua mente encarcerada em pensamentos negativos.
Fazerem listas de coisas boas e positivas também ajuda!
Filha, quando te faltar algo, algo sem a qual achas que não consegues viver, tenta substituir essa falta por outra coisa qualquer,procura alternativas,mas não deixes que uma pequena bola de neve se transforme numa avalanche de pensamentos negativas que te imobilizem.
Adoro-te!
20.02.2012

Morte inesperada

Morte inesperada

Sara,
Um dia, quando menos se espera. Acontece o impensável: a morte leva-nos quem amávamos antes do tempo; alguém ainda com muitos projectos e sonhos por realizar; alguém que vai fazer muita falta porque deixa familiares e amigos inconsoláveis, porque pela lei da vida, deveriam durar muitos mais anos e isso não aconteceu!
No início, vai sentir uma grande revolta perante a injustiça de ter falecido alguém tão jovem, alguém que faz tanta falta e gente ruim que nunca mais morre. Depois, vais sentir um grande desânimo e uma enorme tristeza. A dor da perda vai morar contigo e vai-se deitar contigo durante muitos dias. Que fazer? Não sei bem, segue o teu coração: escreve-lhe uma carta despedindo-te, dizendo-lhe o que não tiveste tempo de dizer, faz-lhe uma homenagem e vive como essa pessoa gostaria que tu vivesses se estivesse viva.
A morte de um/a jovem é sempre muito perturbadora e remete sempre para a nossa própria mortalidade e para a possível morte daqueles que mais amamos. Assim, poderás reflectir na tua vida e naqueles que amas, poderás aproveitar melhor o tempo para ESTAR realmente com eles e fruir o momento e dizer-lhe sempre o quanto os amas.
Filha, escrevo-te estas cartas por ter consciência de não ser infinita, para o caso de partir mais cedo da tua vida. Contudo, espero poder ter estas conversas contigo quando fores adolescente e que nunca precises de as ler sozinha.
Adoro-te!
09.02.2012

Ciúme

Ciúme

Sara,
Nunca te escrevi sobre o ciúme. Hoje em dia, confessar o ciúme é quase pecado. Ciúme é logo conotado a possessão doentia, a obsessão, a falta de auto-estima, a insegurança, falta de confiança, falta de personalidade. Contudo, o ciúme é uma emoção universal e pode surgir em variadíssimas situações: quando…
… um filho é mais beneficiado que outro.
… paira um clima entre o objecto dos nossos pensamentos e outrem.
… um amigo íntimo desleixa a amizade para prestar mais atenção a outro amigo.
… respondem aos nossos apelos com silêncio.
… desconfiamos que o laço está-se a quebrar do outro lado.
… quem gostamos anda entusiasmado com outras pessoas e, connosco, age com indiferença.
… até o nosso próprio cão prefere ficar na casa do vizinho do lado que tem uma cadela.
… a negritude da desconfiança se sobrepõe ao arco-íris da paixão.
E poderia fazer uma lista infindável de casos ciumentos.
Todos nós sentimos em maior ou menor grau, sempre que achamos que podemos vir a perder o afecto de alguém que nos é querido. Respondemos à ameaça da perda com o ciúme. Permite-nos estarmos atentos ao outro, é como um sinal de alarme…
Porém, sentir ciúme é feio e mal visto. Só as almas pouco nobres podem ter emoções mesquinhas como os ciúmes!
Pois é…Quem faz esse tipo de afirmações tem um pouco de razão quanto à insegurança e à auto-estima mas nem todos os casos de ciúme derivam daí.

1º O ciúme é uma emoção universal, sentida em todos os povos e culturas porque faz parte do património genético da humanidade.

2º O ciúme existe para garantir o sucesso reprodutivo da espécie, pois havendo exclusividade numa relação, é mais fácil garantir a sobrevivência dos descendentes!

3º O ciúme funciona como uma forma de mostrar que se gosta do outro e que certas situações que envolvem ocasionalmente terceiros podem-nos fazer sofrer.

4º O ciúme é uma emoção normal em pessoas que já foram traídas anteriormente ou que assistiram às infidelidades dos pais durante a infância.

5º O ciúme pode tornar-se doentio quando a pessoa começa a vigiar o outro de forma sistemática, quando começa a restringir os contactos com o exterior isolando o outro e quando começa a desvalorizá-lo de forma a controlá-lo melhor.

6º O ciúme acontece em pessoas normalmente não ciumentas quando o outro muda e a relação entre ambos fica desequilibrada. Aparece como um aviso de que algo está a correr mal.

7º O ciúme também é mais frequente em pessoas muito emotivas e assim sendo sentem mais intensamente as suas emoções que as outras pessoas.

8º O ciúme é recorrente em pessoas que acham que não valem nada, que são desinteressantes, enfim, que não gostam de si nem têm boa imagem de si próprias. Isso leva-as a acreditar que mais tarde ou mais cedo serão abandonadas quando surgir outra pessoa melhor.

9º O ciúme pode surgir de repente em determinadas ocasiões ou instalar-se definitivamente.

10º O ciúme faz sofrer porque surge muitas vezes aliado à raiva, ao medo, à tristeza, à agressividade, à culpabilização e/ou à insegurança.

Portanto, o ciúme é natural em todo o ser humano! O que não é normal é viver atormentado pelos ciúmes. É preciso reflectir qual é a sua origem e depois tentar controlar o ciúme, resolvendo o que está errado.

A ausência total de ciúme é algo que me perturba tanto como os ciúmes doentios e patológicos. Há uma certa indiferença na ausência de ciúme, uma confiança cega, um deixar de se ver, um desistir de se estar atento ao outro.

Não é usual que não se sinta nem uma pontinha de medo quando há concorrentes atraentes a tentarem seduzir o outro, nem uma pontinha de cólera quando se pensa que pode haver espaço para a traição, nem uma pontinha de tristeza quando há a possibilidade de se perder quem se ama.

Filha, espero que com toda estas explicações que nunca te sintas mal se alguma vez sentires ciúmes, mas nunca deixes que eles se apoderem de ti e de todas as tuas outras emoções e sentimentos. Não queiras ser refém do ciúme, ele é um raptor possessivo e destrutivo.
Adoro-te
08.02.2012

Comparações

Comparações

Sara,
Vai haver um dia na tua vida em que te vais sentir muito triste e perdida. Esse dia poderá ser um dia de rejeição de alguém que te é muito importante ou que já foi na tua vida. Esse alguém simplesmente vira-te as costas e deixa de querer estar contigo. Poderá acontecer por desligamento natural de uma amizade ou de um amor ou até mesmo por substituição.
Ser-se substituída, na minha opinião, é muito pior do que deixar de se ser importante na vida de alguém. Porquê? Porque temos a estúpida tentação de nos compararmos à pessoa pelo qual fomos trocada. De repente, a nossa auto-estima fica ao nível dos nossos pés. Achamos que estão concentrados em nós todos os defeitos e principalmente os nossos pontos fracos, achamos que a substituta nos supera em tudo: se somos fracas, achamos que é mais forte que nós; se estamos deprimidas, achamos que é mais optimista; se estamos agressivas de vido à perda, achamos que a outra é o supra-sumo da doçura. E será mesmo assim? Claro que não! Apenas temos tendência a superlativar a substituta porque estamos em baixo e achamos que deveríamos ser melhores e portanto, a outra deve ser o que não somos.
Se fosses um ratinho e pudesses testemunhar a pessoa com quem obsessivamente te comparas, descobririas que não tens nada com que recear. Tu és tu e a outra é como é. O facto de ter acabado uma relação, não faz com que sejas melhor ou pior que outrem, simplesmente diferente.
Se um dia te sentires muito carente, por favor, filha não te compares a ninguém. Simplesmente pensa em ti, em curar as feridas que te fazem sofrer e sobretudo, cerca-te de pessoas positivas, luminosas, divertidas, pessoas que trazem arco-íris à cinzentice dos teus dias. Não te rodeies de outros depressivos pois, embora sintam o mesmo que tu, apenas te ajudarão a afundar-te mais do que aquilo que já estás.
Sara, espero que esse dia nunca chegue na tua vida, mas se chegar, tenta nunca viver um dia sem te rires de ti própria. Eu cá estarei para nos rirmos juntas.
Adoro-te!
06.02.2012

Altivez

Altivez

Sara,
Hoje fui ostensivamente maltratada por uma pessoa. Não da forma de que mais gosto, que é uma pessoa insultar-te abertamente, dizendo na cara o que não gosta em mim. Não, hoje foi da forma de que menos gosto, que é com uma altivez desdenhosa suprema, ou seja, tratando-me mal educadamente.
Olham de longe com aquele ar superior e falam apenas porque lhes ensinaram que têm de falar com seres inferiores como nós para parecerem «bem». É como se fossem a pessoa mais rica do mundo a falar com o ser mais pobre e desprezível do planeta, porque é pobre, porque não tem a sua educação, porque não está dentro dos seus padrões elevados, porque não é rico, porque não veste as marcas que são boas ou porque simplesmente julgam sem saber da história da pessoa.
Hoje fui ostentsivamente desprezada por uma pessoa e não foi a primeira vez. Já tinha sentido essa presunção anteriormente. A verdade é que já tinha esquecido. A senhora tem razão: não tenho a mesma educação dela. Os meus pais, de quem muito me orgulho, são do povo e sempre me ensinaram a ser simpática e generosa, perdoar a estupidez humana e acreditar sempre que o ser humano pode mudar e tornar-se uma melhor pessoa.
Hoje fui desdenhada por uma pessoa e deu-me vontade de rir. Não dela, de mim! Por me esquecer! Não devia ter metido conversa com a senhora. Devia-a ter cumprimentado apenas como ela queria. Deve ter ficado bem enjoada de ter de me responder, assim com um grande asco… Não se deve fazer isso às pessoas, pois não?
Filha, quando te tratarem com desdém, faz como a tua mãe, ri-te! Porque na declaração dos direitos universais do Homem, dizem que nascemos todos iguais e essas pessoas, coitadas ou nunca leram esses direitos, ou se os leram não compreenderam o que leram. Acontece… Que se há de fazer? Rir!
Adoro-te!
02.02.2011