Sara,
Hoje o teu primo André faz 28 anos.
Quando era pequeno teve uma fase muito difícil. As pessoas não queriam ficar com ele pois ele portava-se muito mal: era muito teimoso, indisciplinado e dizia muitas asneiras. Durante muito tempo, pensaram que ele não se ia modificar e que ia ter um futuro negro.
Contudo, aos 6 anos, quando entrou para o 1º ano, teve uma professora fantástica que o ajudou a tornar-se no homem disciplinado, meigo, com valores que é hoje.
A verdade é que mesmo quando as crianças são difíceis não devemos desistir delas!
Adoro-te.
20.10.2011
Arquivo da Categoria: Família
Infantário
Tia Jó e Tia Minda
Tatá
Sara,
Hoje é dia 1 de Outubro e se a tatá fosse viva faria 91 ou 92 anos.
Quando era pequenina e vinha passar férias a Portugal, ficava sempre na minha Tatá. Tatá é o nome carinhoso em Francês para tia e esta era uma tia muito especial: era minha tia-avó materna. Íamos à praia todos os dias, para o Molhe, onde a Tatá tinha barraca. Ao fim de tarde, o Tonton ia lá ter. Depois voltávamos todos junt…os, jantávamos e eu fazia uma corrida com o Tonton para ver quem comia a sopa mais depressa. Eu ganhava sempre. Na verdade, ele deixava-me ganhar. Gostava de saltar os quintais que ficavam por trás das casas, ali na Constituição, e ir até à casa da Mina brincar. Brincava com as formigas que saíam por uma frincha. Dava-lhes água para não terem tanto calor. Mal sabia, na altura, que as afogava com tanto zelo. Não gostava de laranjas, por isso, a Tatá dava-me tanjas e eu toda contente comia as laranjas todas sem pestanejar. Ia ao cabeleireiro e, quando chegava a parte de pintar as unhas, eu também queria, mas de vermelho! Na altura, também adorava sapatos vermelhos. Ela lá me convencia a pintar de rosa e, outras vezes, a minha teimosia levava a melhor…
O momento mais feliz do dia era quando me ia deitar. Se estivesse lá a Tia Isilda, ensinava-me o Pai Nosso em Português e lá adormecíamos as duas. Se não estivesse, a Tatá sentava-se na minha cama e contava-me uma história. Às vezes, inventava e, no dia seguinte, pedia-lhe a mesma. A Tatá já não se lembrava e eu dizia: – Ó Tatá, ontem, não me contaste assim! A minha história favorita era de longe a da Carochinha, que se punha à janela, depois de encontrar uma moeda a varrer a cozinha, e ouvia aqueles animais todos a gritarem muito alto. Coitado do João Ratão, morto, no panelão…
Mais tarde, já morava no Porto e fiquei a estudar no Carolina Michaelis que é perto da casa da Tatá. Uma vez por semana, ia lá almoçar mas já não fazia corridas com o Tonton. Às vezes, ligava-lhe antes de ir almoçar e dizia: – Ó Tatá, posso levar uma amiga minha para almoçar? – E ela dizia sempre que sim.
A Tatá teve sempre tempo e paciência para mim. Teceu a minha infância de palavras e de personagens maravilhosas. Os meus pais não tinham tempo para isso. A Tatá não teve filhos, mas é como se fosse a avó que não tive…
A Tatá morreu há cerca de 4 anos. Quando ela partiu, levou com ela essa parte da minha infância, tecida de palavras, que foi muito feliz…Arrependo-me de não lhe ter telefonado mais vezes nem de a ter ido ver mais vezes e lhe dizer que gostava tanto dela. Por isso, filha, diz sempre as pessoas que gostas delas. Mais vale pecar por excesso do que por omissão.
Adoro-te!
01.10.2011
Senhor Bubú
Sara,
Uma das pessoas que mais te ama neste mundo, é sem dúvida o teu avô materno. A tua avó São ensinou-te a chamar-lhe senhor bubú e é assim que o chamas. Como ele está no Porto e nós na capital, falamos muitas vezes com ele ao telefone. Inclusive, quando estou ao telefone, achas sempre que estou a falar com ele e pedes-me para falar com o senhor bubú.
Este ano, o teu avô fez 80 anos, mas parece… uns vinte e tal anos mais novo. Nos últimos anos, já foi operado a dois cancros e deu conta deles! Esperemos que os nossos genes tenham saído aos dele.
Quando era pequenina, o teu avô deixava-me fazer coisas perigosas como trepar as rochas e andar em rodas velozes. Uma vez queria trepar a umas pedras bem escarpadas e ele disse-me:
- Vais cair.
Ao que eu respondi:
- Mas eu quero ir!
Então, ele disse:
- Vai, mas se caíres, te magoares e depois chorares levas na cara!
Lá fui eu conquistar as pedras. Claro, caí e esfolei um joelho todo. Começou a sangrar e doía-me, mas retive as lágrimas senão ainda levava nas trombas por ser teimosa. Cheguei à beira dele e disse-lhe:
- Não chorei.
Ele sorriu para dentro e disse:
- Eu vi.
Mas contigo e com o teu irmão Mário é diferente. Não vos deixa trepar porque tem medo que caiam. Não vos deixa exagerar com medo que aconteça algo. Convosco é muito mais protector, é engraçado…
Espero que o senhor bubú ainda viva muitos anos para poderem disfrutar da presença um do outro e desse amor que une avô e neta.
Eu e o senhor bubú adoramos-te filha.
27.09.2011
Afectos
Sara,
O mais importante na tua vida serão sempre os afectos…
E não há ninguém no mundo que te vai amar mais do que eu. A seguir, é o teu pai e depois vêm os avós e os irmãos.
Vais ter muitos amigos e alguns amores na tua vida, mas nunca ninguém sentirá esta felicidade de te ter, esta gratidão a Deus por me ter dado uma segunda oportunidade de ser mãe: tua mãe.
Adoro-te minha filha
27.09.2011
Micas II
Sara,
Continuando a relembrar a tua bisavó Micas, vou-te contar algumas histórias de que me lembro.
Ela faleceu quando eu era adolescente. Lembro-me que o meu pai veio de França antes de ela morrer. Estava e não estava em coma mas já não reconhecia as pessoas. A Micas foi o primeiro familiar que vi dentro dum caixão e ainda me lembro dela, pequenina, rodeada de rendas naquela caixa grande de madei…ra. Foi também a primeira e a única vez que vi lágrimas nos olhos do meu pai.
A tua avó Micas morava em Massarelos, no Porto. É uma freguesia onde nasce muita gente, pois é onde fica a Maternidade.
O que me lembro bem da Micas é que a casa era na parte de cima e que para se passar para a parte onde ela morava havia uma cancela. Era bastante caricata porque a chiadela da porta era muito melhor que um alarme.
- ieeeeeeeeeeeeeeeeeecccc!
- Quem está aí?
Era impossível passar despercebido!
Também me lembro que ela cortava os pacotes de leite e metia lá o lixo que ficava na banca. Tinha um tanque grande que estava sempre a deitar uma pinga, porque assim o contador da água não girava e ao fim do dia havia água para o que fosse preciso.
A Micas era muito poupada. É uma qualidade/defeito que muita gente da idade dela tinha, devido a terem passado fome até e durante as guerras. Qualidade porque poupar é bom. Defeito porque não gozava as coisas que tinha!
Se fôssemos à casa da Micas e precisássemos de lavar as mãos, limpávamos as mãos a um farrapo porque as toalhas boas que tinha, eram para o médico quando ele fosse lá a casa vê-la (quando estivesse doente).
Andava sempre com umas batas por cima da roupa velha e a boa estava no guarda-vestidos para as ocasiões. Para que guardou ela tanta coisa? No final, quando ela morreu, foi tudo dado, tudo por estrear.
Por isso, filha, não te deixo desperdiçar água nem estragar coisas, deves herdar esse lado bom da tua bisavó Micas, mas também não vale a pena acumulares tralhas e tralhas, roupas para usar em ocasiões que nunca mais chegam, porque tudo o que é material, estraga-se! O mais importante na tua vida, Sara, serão sempre os afectos…
Adoro-te!
27.09.2011
Micas
Ontem, se a tua bisavó materna fosse viva, faria anos. Nasceu a 26 de Setembro, nem sei bem em que ano. Não convivi muito com ela porque ela vivia em Portugal e eu em França. Quando eu era pequenina, não havia emails, nem videoconferências. As pessoas comunicavam essencialmente por cartas porque nem sequer tínhamos telefone em casa. E como eu só aprendi a ler aos 6 anos, não facilitou muito …o convívio.
A tua avó chamava-se Maria, mas toda a gente a tratava por Micas, eu inclusive. A tua bisavó Micas era casada com o teu avô António da Costa Lima.
Sempre adoraste animais! Isso já vem de longe. O teu bisavô materno, numa altura em que não se dava valor aos animais, tinha 5 gatos e um cão em casa. As gatas ficavam prenhas e como não se podia ficar com todos os gatinhos, a tua tetravó materna afogava-os e só deixava um para que ele não dissesse nada!
- A gata já não está prenha? Os gatos?
- Só sobrou este os outros morreram ao nascer…
E ele lá se calava.
O teu avô materno (José Lima) conta que tinha uma gata que ia fazer as suas necessidades à sanita! Só que, naquele tempo, mal havia dinheiro para se comer, quanto mais para se comprar uma máquina e tirar fotografias!
O teu avô deixou-me ter vários animais, desde pássaros a peixes e desde gatas a hamsteres…
A paixão dos animais foi-se transmitindo de geração em geração. Eu adoro animais, o teu mano Mário adora animais e para já, parece-me que tu também adoras. Espero que, daqui a uns anos, sejas tu a dar animais aos teus filhos!
27.09.2011

